TECNOLOGIA SOCIAL: O QUE É?

Entrevista com Marcio Schiavo sobre TECNOLOGIA SOCIAL

1. A idéia é primeiro contextualizar o termo: de onde veio o conceito tecnologia social?
O conceito – não a expressão tecnologia social – vem de longe: surge a partir do conceito de tecnologia apropriada (TA), desenvolvido por Mahatma Ghandi na Índia, entre os anos de 1924 e 1927, que revolucionou o processo de fiação manual, como forma de lutar contra as injustiças sociais prevalentes naquele país. O trabalho de Ghandi despertou a consciência política de milhões de indianos, mostrando-lhes a necessidade de autodeterminação das comunidades e, também, de implementar um processo de desenvolvimento que privilegiasse o saber social, popular, e as soluções nativas – em vez do conhecimento importado, sempre distante da realidade cotidiana dos cidadãos e, por vezes, contrário a essa realidade. As idéias propostas por Ghandi implicavam a contínua melhoria dos processos e técnicas tradicionais, a adaptação das tecnologias modernas (TM) à realidade local, aos requisitos de segurança e saúde das pessoas e de preservação do meio ambiente, além do estímulo ao uso das pesquisas e experimentos científicos na solução dos problemas mais importantes e imediatos. A base de todo este trabalho, contudo, era a intensa participação das comunidades afetadas na busca de soluções para os seus problemas, assim como o aproveitamento dos diferentes saberes, informações e experiências acumuladas pelos cidadãos.

As idéias de Ghandi, pouco a pouco, começaram a influenciar as comunidades excluídas de países próximos à Índia, como a China, por exemplo. Mais tarde, foram incorporadas, melhor desenvolvidas e sistematizadas por Ernest Frederich Schumacher, economista alemão radicado na Inglaterra. Ele criou a expressão tecnologia intermediária – também chamada de tecnologia popular – para identificar um tipo de tecnologia que, por suas características, seria mais apropriada aos países pobres. Estas características eram as seguintes: a) baixo custo operacional; b) simplicidade funcional; c) facilidade de manejo; d) eficácia na solução dos problemas cotidianos; e) uso em pequena escala; f) replicabilidade, isto é, a possibilidade de ser aplicada em outros contextos sociais com a mesma eficácia. Foram estas mesmas características (requisitos) que fundamentaram o conceito de tecnologia social (TS) em sua gênese, no Brasil, visto como estratégia eficaz para gerar e sustentar a autodeterminação das comunidades excluídas em seu processo de desenvolvimento.


2. Por que usar uma palavra que pressupõe uma experimentação científica (tecnologia) associada à área social?
Exatamente para mostrar que nem tudo na área social é ou deve ser fruto do conhecimento empírico, que a eficácia e eficiência dos saberes e experiências populares pode ser demonstrada cientificamente, por meio da análise dos processos pelos quais se desenvolvem, dos resultados e impactos sociais que geram. Com isso, também se pretendia deixar claro que uma atuação social consistente requer bem mais do que boas intenções, do que “o desejo de fazer o bem sem olhar a quem”. Em respeito à dignidade das próprias pessoas a quem se pretende beneficiar, em respeito ao seu direito à autonomia social e pessoal e à autodeterminação, a ação social requer intensos estudos e pesquisas, análises e observações críticas constantes, além de um permanente e progressivo processo de avaliação e feedback, que propicie o aperfeiçoamento contínuo dos processos e instrumentos utilizados e a otimização dos resultados e impactos sociais obtidos. Esta forma de atuação social alinha-se, sem dúvida, aos requisitos do fazer científico.


3. Tecnologia social é uma evolução de franquia social?
Não. São conceitos bem diferentes. A tecnologia social refere-se basicamente a uma forma de atuação social, a uma modalidade de intervenção social fundamentado em um determinado processo, método, estratégia, conceito e/ou instrumento específico, que tenha as características básicas delineadas na resposta à primeira pergunta. A franquia social diz respeito à criação e sistematização de um modelo que facilite a disseminação e replicação dessa tecnologia em outros ambientes sociais ou comunidades. Em suma: toda e qualquer tecnologia social – que, obrigatoriamente, tem na replicabilidade uma de suas características básicas – pode ser formatada como franquia social e esta baseia-se em uma ou mais tecnologias sociais. O importante é que esses conceitos sejam compreendidos como complementares, embora diferenciados, a fim de que se possa aproveitar todo o seu imenso potencial para alavancar, sustentar e nortear o processo de desenvolvimento humano local sustentável.


4. Como o termo foi mudando ao longo da história e o que foi se transformando com essa alteração de terminologia?
Como foi dito, o conceito de tecnologia social surgiu e evoluiu ao longo do século passado, sendo utilizadas para designá-lo (embora, não-exclusivamente), expressões como tecnologia intermediária, tecnologia apropriada, tecnologia popular, tecnologia alternativa, tecnologia comunitária, tecnologia da escassez, tecnologia de baixo custo, tecnologia socialmente apropriada, tecnologia ambientalmente apropriada, tecnologia humana e outras, de menor aceitação. Com algumas nuances – privilegiando ora este, ora aquele aspecto – todos estes termos designam métodos, processos, estratégias ou procedimentos de baixo custo e fácil aplicação, eficazes, de pequena escala e facilmente replicáveis. Sempre mantiveram, também, o foco na busca de soluções apropriadas aos diferentes contextos socioeconômicos, culturais e ambientais prevalentes nas comunidades pobres. E, finalmente, sempre privilegiaram o saber popular, as alternativas de soluções espontaneamente surgidas nas comunidades, reconhecidas como detentoras do direito à autodeterminação e à participação no processo de planejamento, execução, monitoramento e avaliação das ações voltadas ao seu próprio desenvolvimento.


5. Produção de tecnologia implica em experimento e risco. Como é isso na tecnologia social?
Evidentemente, a geração e a aplicação de uma tecnologia social requer um forte sentido ético. Isto porque – diferentemente do que ocorre em outras áreas –, o experimento de uma tecnologia social não se dá em laboratório, de uma maneira que o pesquisador tem total controle das operações; mas sim, nas próprias comunidades que se pretende beneficiar e junto aos segmentos sociais que se pretende beneficiar. Os riscos são, portanto, bastante elevados. Caso se aplique algum procedimento inadequado, pode-se obter até mesmo um efeito iatrogênico, prejudicando-se aqueles a quem se pretendia beneficiar. Neste caso, o rigor ético dos agentes da intervenção social constitui a melhor forma de prevenção dos eventuais riscos associados ao processo de implantação da tecnologia. Consoante os seus valores éticos, portanto, devem ser criados e estabelecidos os sistemas, as metodologias e instrumentos a serem empregados no processo de monitoramento e avaliação permanentes, componentes programáticos que devem iniciar-se ainda na etapa de estudo situacional e diagnóstico do contexto social, estendendo-se pelas etapas de concepção e desenvolvimento da tecnologia, planejamento e implantação. É importante, também que todo este processo se desenvolva em permanente interação com os grupos beneficiários, com vistas a garantir que o produto (serviço) final corresponda às suas reais necessidades e expectativas, além de contemplar os seus saberes e experiências, respeitar o seu direito à autodeterminação, alavancar e fomentar sua autonomia, seja pessoal ou socialmente.


6. Quais as etapas que devem ser levadas em conta na construção de uma tecnologia social?
Consoante a filosofia da Comunicarte, o processo de construção de uma tecnologia social envolve seis etapas progressivas, que se complementam. São elas:
a) Diagnóstico Situacional – É a análise detalhada do contexto socioeconômico, cultural, ambiental e comportamental em que se vai operar, buscando-se identificar os problemas socioambientais mais relevantes e suas possíveis soluções; os segmentos mais afetados e suas principais características sociodemográficas, econômicas, culturais e comportamentais; as potencialidades presentes na comunidades em termos de recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos; as atitudes, hábitos e práticas mais prevalentes em relação às questões sociais que serão abordadas; os profissionais e instituições locais mais influentes, que poderão atuar como agentes multiplicadores ou validadores da tecnologia social; os demais líderes formais e informais; e outros aspectos. Atualmente, a Comunicarte vem trabalhando na formatação e sistematização do Estudo de Impacto Social (EISO) e do Relatório de Impacto Social (RISO), um modelo de análise conceitual e metodologicamente bem mais avançado do que o estudo ou diagnóstico situacional.
b) Criação & Desenvolvimento– Esta etapa refere-se à concepção da tecnologia social e seu refinamento mais imediato, ajustando-a tanto às necessidades e expectativas dos grupos beneficiários quanto às potencialidades locais. A utilização de um número de telefone para ligações gratuitas com denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes e/ou de violência contras as mulheres, por exemplo, é uma tecnologia social que vem obtendo os melhores resultados em muitos estados. Contudo, tecnologias dessa natureza seriam quase inútil em comunidades interioranas muito pobres, nas quais o acesso ao telefone é bastante difícil. Quanto ao refinamento, o processo de implantação da tecnologia deve ser monitorado e avaliado, para que se identifiquem as melhores formas de propiciar o serviço ou produto à população. No caso do telefone, são requisitos essenciais: a) gratuidade da ligação; b) sigilo absoluto quanto à identificação do denunciante; c) período em que o serviço está disponível, de preferência, 24 horas por dia; d) presteza e qualidade do atendimento às pessoas que desejarem oferecer denúncias; e) possibilidade de o denunciante acompanhar o andamento do caso denunciado; e outros aspectos que a prática demonstre serem relevantes. O processo de refinamento de uma tecnologia social pode perdurar, portanto, até após a avaliação de resultados e de impacto social das ações, que comumente oferecem novos subsídios para o seu aperfeiçoamento técnico e adequação ao contexto social.
c) Viabilidade Técnica– Nesta etapa, deve-se estabelecer e consolidar o padrão técnico da tecnologia, o seu padrão tecnológico. Assim, o soro caseiro possui uma fórmula e um método de produção universalmente aplicável, o mesmo ocorrendo com a multimistura e os alimentos preparados com o soro do leite. No caso de telefones do tipo disque-denúncia, o padrão tecnológico envolve a precisa identificação e a classificação das violações a serem denunciadas, assim como o modelo básico de atendimento ao denunciante e um sistema de acompanhamento das denúncias junto a outros órgãos envolvidos.
d) Testes de Aferição da Viabilidade – Estes testes de aferição constituem o processo de experimentação de uma tecnologia social, e as suas características dependem da natureza dessa tecnologia. Os primeiros testes de aferição da viabilidade devem ser realizados tão logo seja estabelecido o padrão técnico da tecnologia. Em geral, a experimentação ocorre por meio da implantação do serviço ou produto junto a um grupo selecionado de pessoas, que se dispõem a contribuir para a validação e refinamento da tecnologia social. No caso da adição de soro de leite bovino aos alimentos, por exemplo, cujos benefícios nutricionais há tempos são conhecidos, a etapa de experimentação concentrou-se em estabelecer uma aparência, aroma e sabor que facilitassem sua aceitação pelos beneficiários. Já em relação à farinha multimistura, os testes também indicaram o tipo e variedade dos seus componentes, de maneira a elaborar um produto nutritivo e balanceado. Algumas técnicas de pesquisa social (como grupo-focal, observação participante, pesquisa-ação e pesquisa de follow-up) podem ser aplicadas eficazmente à validação de tecnologias sociais.
e) Viabilidade Política– É a etapa em que a tecnologia social passa a ser reconhecida e aceita como uma solução eficaz, conquistando autoridade e visibilidade junto a diferentes atores sociais. Para isso, é fundamental desenvolver um programa consistente e articulado de comunicação, de maneira a disseminar a tecnologia junto aos diferentes públicos de interesse e, em especial, junto aos líderes e formadores de opinião. Os públicos-alvo das ações de comunicação deverão ser adequadamente segmentados, de acordo com a natureza da tecnologia social, para que os produtos e atividades sejam bem focalizados, propiciando resultados mais rápidos e consistentes. Assim, uma tecnologia de natureza educacional deve ser disseminada, prioritariamente, junto a professores, diretores de escolas, supervisores e orientadores educacionais, formuladores e executores de políticas educacionais nos três níveis de governo e legisladores, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Seja qual for a natureza da tecnologia social, os profissionais de comunicação também devem constituir um público-alvo prioritário, dada a sua capacidade de multiplicação das informações e de contribuição à formação da opinião pública. Assim, paulatinamente, a tecnologia social se vai impondo como uma conquista social, sendo comentada e recomendada por técnicos influentes em suas áreas de atuação, reivindicada e apontada como solução por diferentes organizações e movimentos sociais. Uma tecnologia social torna-se politicamente viável quando é institucionalizada, questão analisada mais adiante.
f) Viabilidade Social– Esta é a última etapa do processo de construção de uma tecnologia social, quando ela deverá estar apta a ganhar escala, sendo replicada em comunidades que enfrentem os problemas que motivaram sua criação. Neste caso, dois fatores são cruciais. Primeiro: a tecnologia deve ser formatada e sistematizada como uma franquia, para que o processo de replicação se realize de acordo com o modelo preestabelecido, inclusive com os ajustes e alinhamentos necessários para atender às especificidades locais. Segundo: é preciso que se estruture uma ampla rede de atores sociais em torno da tecnologia, replicando-a em diferentes pontos de distribuição, facilitando o acesso da população aos serviços. Nesta fase, a tecnologia social já poder ser considerada uma política pública. Se for possível envolver o setor governamental, tornando-a também uma política de governo, seus resultados e impacto social serão potencializados.


7. Quanto tempo, em média, leva esse processo?
Depende muito da natureza e complexidade da tecnologia social que se pretende desenvolver ou que se está desenvolvendo. De qualquer modo, a etapa de diagnóstico situacional (ou de EISO/RISO) não deverá levar menos de dois meses, a fim de que elabore um estudo criterioso e consistente; por sua vez, as tapas de testes preliminares e efetiva implantação da tecnologia requerem de quatro a seis meses de trabalho; a de monitoramento e avaliação de resultados, não menos de seis meses. Deste modo, o tempo mínimo requerido para que uma tecnologia social seja concebida, desenvolvida, implantada, acompanhada, aperfeiçoada e possa demonstrar a sua eficácia e eficiência por meio de resultados quantitativos e qualitativos consistentes é de um ano a um ano e meio. Antes disso, deve-se considerar o protótipo em fase de experimentação, ainda na dependência da comprovação dos resultados esperados.


8. O que torna uma ou várias experiências uma tecnologia social?
Primeiro: estar voltada à solução de um ou mais problemas sociais concretos. Segundo: caracterizar-se pelo baixo custo operacional relativo, pela simplicidade funcional e facilidade de manejo, pela sua eficácia na solução dos problemas-foco, pela aplicação em escala relativamente pequena e pelo seu potencial de replicabilidade. Terceiro: ser igualmente aplicável (embora com pequenas variações ou ajustes) a diferentes locais, comunidades ou grupos que convivam com problemas similares. O soro caseiro para o combate às diarréias e à desidratação, por exemplo, é altamente eficaz e não produz qualquer efeito colateral, independentemente do contexto socioeconômico, cultural e ambiental dos segmentos sociais beneficiados, sejam eles habitantes do sertão pernambucano, da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, ou do bairro do Morumbi, área nobre de São Paulo; sejam, ainda, moradores das grandes cidades européias, das populosas capitais asiáticas ou das pequenas comunidades incrustadas no coração da África. O mesmo ocorre com o preservativo masculino de borracha, utilizado para prevenção da gravidez não-desejada e das doenças sexualmente transmissíveis; com a farinha multimistura, usada como complemento alimentar e para prevenção da subnutrição infantil; com a adição do soro de leite à dieta diária, também utilizada como complemento alimentar e preventivo da desnutrição. Observa-se, pois, que uma tecnologia social também deve envolver a participação das comunidades em seu processo de criação, desenvolvimento e implantação, assim como deve focalizar as suas necessidades mais relevantes e estar em consonância com os seus valores, hábitos e práticas. Por fim, outra característica importante de tecnologia social é sua atemporalidade. Ao contrário dos projetos e programas, que têm prazo definido, a tecnologia social mantém-se válida até que outra tecnologia, voltada à mesma questão, porém mais avançada, a venha substituir.


9. Como ela ganha institucionalidade? Ou seja, como deixa de ser uma colcha de retalhos de iniciativas bem intencionadas e passa a fazer parte não de um projeto, mas de uma política nacional de superação da pobreza e de desenvolvimento?
O processo de institucionalização de uma tecnologia social depende, basicamente, da rapidez e qualidade com que ela atende às necessidades e expectativas das comunidades-alvo. Assim, quanto antes ela propiciar os benefícios planejados e quanto mais consistentes e significativos forem esses benefícios, mais rapidamente ela conquistará o apoio da comunidade e será incorporada ao conjunto dos seus serviços, produtos e equipamentos públicos. Em geral, quando não se desenvolvem ações especificamente com esse objetivo, o processo de institucionalização é lento, independentemente da relevância da tecnologia, da eficácia de suas atividades e dos resultados e impacto social alcançados. Assim, é preciso desenvolver um programa de comunicação bem articulado, sistematizado e contínuo, de maneira a disseminar os dados e informações essenciais sobre a tecnologia social, seus resultados e os benefícios advindos para a comunidade. Tal programa deve ter a sua audiência muito bem segmentada, de modo a que se consiga mobilizar e envolver, progressivamente, os líderes comunitários informais; os médicos, professores, jornalistas e outros formadores de opinião; os líderes formais das áreas política, governamental, institucional e associativa, até que as comunidades tenham incorporado e assumido a tecnologia como um valor, um bem coletivo. Deve-se observar que a institucionalização de uma tecnologia social a transforma, automaticamente, em uma política pública, visto ser de construção e interesse coletivo, voltada à solução de problemas também coletivos. Contudo, não a transforma em política governamental, o que requer outros requisitos, métodos e medidas a serem tomadas pelos seus gestores, sobretudo no âmbito da advocacia e da mobilização social. Este aspecto será discutido mais adiante, quando for abordado o destino final de uma tecnologia social.


10. Há quem diga que a maioria dos projetos sociais do país são calcados em conceitos e princípios, mas sem uma base metodológica. Não há etapas de pesquisa, planejamento, implementação, monitoramento e avaliação para transformá-los em tecnologia social. Você concorda com essa avaliação?
Concordo em parte. Penso que não se deve generalizar, pois corre-se o risco de cometer injustiças. A maioria dos projetos e programas sociais ora desenvolvidos no País, com certeza, não tem base metodológica, sendo que seus gestores atuam quase que “por instinto”. Como você disse, esses gestores parecem desconhecer a existência e a importância das ferramentas de pesquisa, planejamento, monitoramento e avaliação das ações, que são cruciais para o êxito do projeto, considerando os seus objetivos e metas. Contudo, há muitos gestores sociais que empregam essas ferramentas de forma consistente, o que se reflete nos resultados apresentados por seus projetos. É o caso, por exemplo, dos projetos que integram o Programa Crescer – Transformando Expectativa em Garantia de Vida, implementado pela Pepsico do Brasil, e do qual a Comunicarte é consultora técnica. Estes projetos se pautam por uma análise rigorosa da realidade social em que se realizam, com ênfase nos vários problemas associados à alimentação inadequada e, sobretudo, nas necessidades e demandas dos seus públicos-alvo, que são constantemente chamados a opinar sobre a qualidade dos serviços a eles oferecidos. O componente de planejamento desses projetos também é muito bem cuidado, sendo formulado em planilhas destinadas ao monitoramento e avaliação das atividades. Neste planejamento, que cobre todo o ano, são estabelecidos os objetivos específicos e as metas quantitativas e qualitativas, consoante o objetivo geral do projeto, assim como os meios e instrumentos de verificação dos resultados e impacto social. Tanto na etapa de pesquisa quanto na de planejamento, os gestores dos projetos são assessorados por técnicos da Comunicarte. Os componentes de monitoramento e avaliação, por sua vez, são implementados diretamente pelos técnicos e consultores da Comunicarte, que trabalham sempre em interação com os gestores. Ao fim do primeiro semestre de cada ano, o planejamento estratégico dos projetos é revisado, a fim de que façam os eventuais ajustes necessários. O processo de monitoramento realiza-se continuamente, de forma presencial ou por meio da análise dos relatórios de atividades dos projetos. A avaliação, por fim, é realizada trimestralmente com base na documentação técnica dos projetos e anualmente, de forma presencial – quando, inclusive, são entrevistados representantes dos diversos públicos de interesse dos projetos. O Sistema de Aferição dos Resultados (SAR), criado pela Comunicarte para avaliação desses projetos, contempla três diferentes modalidades de avaliação, focalizando os processos, os resultados e o impacto social. Ressalte-se, ainda, que são realizadas duas oficinas de capacitação por ano, destinadas a reciclar e atualizar os gestores em relação aos novos conceitos e métodos prevalentes no Terceiro Setor e às modernas ferramentas de gestão social. Os projetos que integram o programa Petrobras Fome Zero também dão a devida atenção aos componentes de pesquisa, planejamento, gestão, monitoramento e avaliação. Este programa fundamenta-se no Petrobras Social, também concebido e formatado pela Comunicarte, para a qual esses componentes são essenciais ao êxito de um programa social.


11. Você acha que o desenvolvimento da tecnologia social implicaria em desenvolvimento local?
Sem dúvida! Assim como se organizam Arranjos Produtivos Locais (APL) pode-se organizar também os Arranjos Sociais Locais (ASL), congregando diversos atores sociais dedicados a implementar uma dada tecnologia social. Se for possível estabelecer parcerias estratégicas entre esses dois tipos de arranjos, a sinergia decorrente poderia multiplicar várias vezes o alcance e a cobertura das tecnologias produtivas e sociais, potencializando também o seu impacto em termos de desenvolvimento humano.


12. É possível “importar” tecnologias sociais de outros lugares, como o Banco do Povo, de Bangladesh? Em caso afirmativo, o que é preciso avaliar antes da “importação”?
Se a ação ou iniciativa em causa for realmente uma tecnologia social, claro que é possível. Afinal, uma das principais características das tecnologias sociais é seu potencial de replicabilidade em outros contextos sociais, uma vez que contêm um núcleo conceitual e metodológico aplicável a diferentes realidades. Especificamente em relação ao Banco do Povo, cremos firmemente nas possibilidades de “importação” ou replicação dessa tecnologia. Contudo, deve-se ressaltar que o Brasil possui considerável experiência e criatividade em sistemas de microcrédito, o que torna desnecessária essa importação.


13. Quais são os critérios utilizados para medir o impacto e o sucesso de uma tecnologia social?
São muitos os critérios possíveis de serem aplicados à avaliação do impacto e à aferição do êxito das tecnologias sociais. A Comunicarte aplica uma metodologia baseada nos critérios de eficácia, eficiência e efetividade (3E). Avalia-se a eficácia de um projeto, programa e/ou tecnologia social pelo grau de consecução dos seus objetivos e metas, levando-se em consideração as transformações instauradas no meio ambiente e/ou junto aos públicos-alvo. A eficiência é medida pela economia de tempo e recursos (humanos, materiais, tecnológicos e financeiros) obtida na consecução dos objetivos e metas; ou seja: é fazer mais com menos. A efetividade, por sua vez, é aferida pelo nível de sustentabilidade das mudanças instauradas e dos novos conhecimentos, atitudes e práticas disseminados. A eficácia relaciona-se ao produto ou resultados alcançados pela tecnologia; a eficiência, à natureza e qualidade do processo de execução das atividades; a efetividade, ao impacto causado. Assim, uma tecnologia pode ser eficaz sem ser eficiente e efetiva; pode ser eficaz e eficiente, mas não efetiva; e pode ser eficaz e efetiva, sem ser eficiente. É difícil, porém, encontrar-se esses três atributos numa mesma tecnologia.


14. O destino final de uma tecnologia social é ganhar escala de política pública? Que tecnologias sociais ganharam essa escala e por que isso aconteceu?
Certamente, o grande objetivo que se tem ao criar uma tecnologia social é torná-la uma política pública; e não, necessariamente governamental – como já foi esclarecido. No Brasil, várias tecnologias sociais já se transformaram em políticas públicas. São exemplos: a) a farinha multimistura, utilizada em grande escala pela Pastoral da Criança e outras instituições; b) as cisternas de placas pré-moldadas que, no Nordeste, acumulam a água da chuva e proporcionam o abastecimento durante os períodos de seca; c) a adição de soro de leite bovino a preparações alimentares, integrante do Programa Crescer, já utilizada por vários municípios mineiros na merenda escolar; d) o Projeto Mãe Canguru, que substitui com vantagens a utilização de incubadoras nos cuidados a bebês prematuros; e) o soro caseiro, amplamente utilizado nos programas desenvolvidos pelo UNICEF e, também, pela Pastoral da Criança. Note-se que as tecnologias “cisternas de placas pré-moldadas”, “Projeto Mãe Canguru” e “soro caseiro”, além de públicas, também se tornaram políticas de governo.


15. Como você pensou e montou o Banco de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil? Quanto tempo demorou o processo? Quando foi isso? Qual foi a reação das pessoas (hoje isso ainda é muito novo, fico imaginando naquela época...)?
O Banco de Tecnologias Sociais, da Fundação Banco do Brasil, foi concebido e formatado com base no DNA da organização, que remete ao conceito de banco, do seu instituidor. A idéia-força é a de “depósitos” e “saques” de tecnologias sociais, sendo que a cada “saque” ou replicação, o capital social acumulado se multiplica. O Banco de Tecnologias Sociais e o Premio Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais – a estratégia de captação de tecnologias sociais para o Banco – foram formatados em cerca de cinco meses, de novembro de 1999 a março de 2000. Desde o início, a idéia do Banco causou grande impacto junto a líderes e formadores de opinião no Terceiro Setor brasileiro, que reconheceram o elevado nível de inovação e criatividade, de qualidade e alinhamento à missão do Banco do Brasil e da Fundação Banco do Brasil, assim como seu elevado potencial para gerar transformações positivas e duradouras na área social, contribuindo efetivamente para a inclusão social dos segmentos populacionais excluídos. Esta resposta é bem curtinha porque, anexo, segue o documento de conceituação do Prêmio e do Banco, no qual podem ser obtidas informações mais detalhadas sobre estas bem-sucedidas iniciativas, agraciadas com o 1º. Marketing Best de Responsabilidade Social, em 2002, e o Prêmio ABERJE nacional em 2003, além do ABERJE Centro-Oeste/Leste, em 2002 e 2003.

Entrevista concedida para Andréia Peres




                                                                                                                             Fonte: www.cdobiz.com

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